O ritual da laranja (Victor Chaves)
Era um tempo em que o vô nos chamava no quintal.Estávamos lá.
Leo,eu e os pés de laranja campista,dos quais o vô arrancava as
frutas,quase a cair,de tão maduras.Tirava do bolso um velho canivete
e começava a descascá-las.Fazia-o bem devagar e uniformemente.
Torcíamos para que a casca saísse inteira,em sua forma espiralada,no
giro contra o corte lameloso.Gostávamos de rodá-la no ar,enquanto
contávamos cada volta, aos gritos,para ver em que número se romperia.
Despida a laranja,o vô fazia um corte fundo,em forma de cone.Saía uma
tampinha,ansiosamente esperada.Em seguida,fazia outro furo,seguido de
um percurso cortante de 360 graus.O suco vinha á tona,e a laranja,sob
nossos olhos atentos e brilhantes,saía,toda a respingar,da mãos do vô
para as nossas.Dia desses,deparei-me com um pé de laranja carregado.
Deixei o celular no carro e ative-me a escolher uma das frutas.Chamei
o sobrinho,de sete anos,e lhe expliquei os passos do ritual da laranja.
Ele,entusiasmado,esqueceu-se dos joguinhos virtuais.Eu,emocionado,
pensei: o momento faz o sabor e o sabor,traz de volta o momento.Lembrei-me do vô!

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